
Fontes Públicas e Chafarizes do Serro
As Fontes Públicas e os Chafarizes eram monumentos estritamente ligados ao abastecimento antes da inserção dos sistemas modernos de tratamento e distribuição de água que, em sua maioria, datam do século XVIII e XIX e eram a única forma de abastecimento de água na cidade, pois eram poucas as construções que dispunham de fontes próprias e de instalações de água corrente. A construção dos chafarizes e das fontes era muitas vezes motivada por solicitações dos moradores.
No Brasil Colonial era de responsabilidade de cada vila a obtenção e distribuição de água. Os responsáveis pela construção destes equipamentos urbanos era o Senado da Câmara, que publicava editais de arrematação e contratava artífices para trabalhar sob a orientação de um “risco” - como era chamado o projeto. O material preferencialmente empregado nos tanques, ornatos e muros eram rochas locais, sendo que mais tarde, novos materiais foram introduzidos, como o ferro fundido. As Fontes Públicas que hoje permeiam o cenário urbano do Serro estão diretamente ligadas à história do abastecimento de água da cidade, obras de grande importância para a população colonial, a maioria destes monumentos teriam sido construídos entre a segunda metade do século XVIII e a segunda metade do século XIX, facilitando o acesso à água aos moradores dos arredores como relata Dario A. F. Silva em, Memórias do Serro Antigo, publicado em 1928:
Em 1764, vereação de 09 de dezembro de novo o procurador lembrou ao Senado o citado capítulo de correição; mas, apenas desta vez se conseguiu o chafariz da Praia, ainda existe, abaixo do morro. (SILVA, 1928/2008, p. 99)
[...] Se porém em frente à Matriz foi feita a primeira fonte, ou chafariz, não ficou sem um a Cavalhada: na sessão de 24 de setembro de 1828, mandou a Câmara Municipal colocar outro chafariz o qual devia ser ―uma coluna organizada de três peças vindas do pedestal; no meio quatro carrancas vomitando água por quatro canos e sobre tudo isso uma pirâmide, tudo de pedra, tendo em baixo um tanque oitavado com quatro assentos para descanso dos recipientes chapeados com gatos de ferro ligados com chumbo, forrado o centro com pedras lavradas, de modo a não minar água. O da Purificação é de 1827.(SILVA, [1928], 2008, p. 100)
[sic] Até o fim do século 1799 nenhum chafariz havia ou fonte na parte alta da Vila; eram em baixo todas como a do Vigário, a do Quatro Vinténs, a da Rua da Cadeia, a do Quintal de Luiz Antônio e outras menores. Nestas é que a população serrana pelos escravos ou escravas mandava conduzir barris cheios, fazendo depósito em pipas de cozinha. (SILVA, 1928/2008, p.42)
Dario A. F. Silva ainda relata a dificuldade de acesso às fontes de água potável:
A água potável desde os princípios até hoje tem sido o pesadelo do Serro. A população, a república, como se dizia então, se supria de água conduzida em barril e na cabeça de pretos. De duas principais fontes se carregavam os barris: a do Vigário e dos Quatro Vinténs, fora várias outras em vários pontos, pequenas. (SILVA, 1928/2008, p. 99)
Joaquim de Salles em, Se não me falha a memória, publicado em 1961, também atesta que os chafarizes foram inicialmente construídos na parte baixa da cidade, no Bairro da Praia e só posteriormente outros três, na parte alta. Estas Fontes e Chafarizes cumpriam também uma importante função de centros de convivência direta e espontânea dos moradores. Joaquim de Salles ainda relata a função social, como suporte para a exposição da vida íntima dos senhores e a afluência proporcionado pelos carregadores de água:
Também os chafarizes eram uma escola de palavras pornográficas, porque a cidade, pela sua extensão, precisava de um maior número, quando só possuía quatro: o do Largo a Matriz, o da Purificação, o do Largo da Cavalhada e do Jogo da Bola. Destes, apenas o do Largo da Cavalhada dispunha de quatro bicas. Os outros só tinham uma; e como a clientela era assaz numerosa, para matar o tempo, punha na rua os podres das casas dos patrões. (SALLES, 1993, p. 110).
[...] O que se apurava de melhor naquele pessoal, além do abastecimento d’água nas casas, ainda era o movimento que proporcionava às ruas desertas e tristes em certas horas do dia. Aquelas mulheres e aqueles rapazes de latas e rodilhas à cabeça eram o único sinal de vida na velha Vila do Príncipe, cansada e adormecida. (SALLES, 1993, p. 110)
No panorama das Fontes Públicas e Chafarizes, o Serro é modesto pela quantidade de monumentos se comparado à abundância dos recursos hídricos, muitas destas fontes foram mutiladas, soterradas, abandonadas e outras se extinguiram por completo, a implementação de um sistema moderno de abastecimento de água inutilizou grande parte destes monumentos. Algumas ainda estão em funcionamento, como a Fonte do Vigário, da Ponte do Lucas, da Rua da Cadeia e das Três Bicas e foram incorporadas pela paisagem urbana e são ainda locus de sociabilidade da população.
![Antiga Casa da Câmara na Rua das Flores [atual Rua Nelson de Sena] [1938] - Arquivo Central do Iphan-Seção Rio de Janeiro.](https://static.wixstatic.com/media/b6d351_8fbb73be27d04aabba11f4804fff20be~mv2.jpg/v1/crop/x_11,y_11,w_383,h_258/fill/w_462,h_306,al_c,lg_1,q_80,enc_avif,quality_auto/b6d351_8fbb73be27d04aabba11f4804fff20be~mv2.jpg)
![Chafariz da Matriz [1938] - Arquivo Central do Iphan-Seção Rio de Janeiro.](https://static.wixstatic.com/media/b6d351_999883e0f6314d1380ac06bfe5a785cc~mv2.jpg/v1/fill/w_461,h_346,al_c,q_80,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/Chafariz%20da%20Matriz_edited.jpg)
